quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Amor de Alma

                                           foto: Verônica Coelho

“Nem todo mundo tem a oportunidade de se despedir dessa forma.” 
Escutei de uma grande amiga outro dia. É painho, a última vez que nos encontramos foi em grande estilo. A gente estava em festa. Você estava lindo, de meio fraque, barba aparada, cabelos cortados e muito, mas muito cheiroso. Tudo pra me agradar. Sem o colar africano, sem os vários anéis, sem a cartola que você tinha inventado, sem calça boca-de-sino. E tudo isso pra me agradar. Eu pedi e insisti pra que naquela noite você deixasse um pouquinho de lado o Germaninho artista, produtor de cinema, contestador, irreverente e batalhador para que fosse simplesmente meu pai. E você foi. A contragosto, inicialmente, mas foi. E aqueles momentos foram tão preciosos pra nós dois. O teu olhar emocionado quando me viu vestida de noiva, nosso nervosismo e ansiedade dentro do carro, antes de entrar na igreja. As lágrimas no altar, você e mainha, lado a lado, como os vi tão poucas vezes. O “Ói, Ói” de recomendação quando, na frente de tantos rostos queridos, soltei seu braço para seguir ao lado de Thiago. A nossa dança, a nossa despedida. Muita emoção. O dia mais feliz da minha vida.

                                           foto: Luka Santos

Hoje, 37 dias depois, estamos aqui reunidos com o coração apertado. O meu coração sofre pelo que não vivemos, por um futuro que ainda estava por se desenhar, pelo que vinha pela frente. O almoço que combinamos pro domingo, pra você conhecer o nosso apartamento. Não deu tempo. O domingo 17 chegou mas na hora do nosso almoço te chamaram para um outro compromisso, inadiável.

Lembra do que você me perguntou no telefone quando voltei de lua-de-mel? “Cadê minha filha casada? Já tá buchudinha? Quero que o meu neto chegue logo pra eu estragar.” E eu respondi: “Não, pai! Pelo amor de Deus.. só daqui a uns três anos.” Esta foi a primeira vez que falávamos de um cronograma que não era de filmagem, pré-produção ou de distribuição. Painho, dói demais saber que você não vai poder carregar os meus filhos no colo. Assim como dói ver teus projetos inacabados, tantos ainda por acontecer, tantas idéias.. a tua mente não descansava jamais. Uma fábrica que criava muito mais do que, de fato, tinha tempo de realizar.

Germaninho chegou nesta vida pra marcar a vida da gente. Ele não fazia o tipo discreto. Gesticulava, falava alto, falava muito, falava bem. Pagava contas absurdas de telefone. Ele “tinha a voz como um pipoco.” E tinha muita coisa pra dizer. E pra ensinar. Pra mim ele foi um excelente professor. Eficiente, exigente.. e um pai diferente. Hoje eu tô com medo de não ter mais ele pra soprar no meu ouvido e me apontar os caminhos... ele conhecia os melhores atalhos. E sempre tinha uma resposta esclarecedora, didática e completa, de quem entendia de quase tudo.

 
                                                     foto: Marina Tigre

Eu sei que mesmo falando tanto, em quase 27 anos eu só conheci um pedacinho de Germaninho. Ele é grande demais. Posso encontrar pequenas porções dele nos jardins das Sete Casuarinas, nas ladeiras de Olinda, nas águas de Carneiros, do Capibaribe, do São Francisco.. no céu estrelado, no cinema de Pernambuco, na música, nos livros, nos amigos tantos.. e no espelho. E eu me encho de orgulho.
Ele estava com os olhos fechados mas eu disse no ouvido dele, já nos créditos finais: “pai, o nosso amor é de alma”. E o fim está muito longe de chegar.

Texto lido na missa de 7º dia de painho, 
terça-feira 25 de outubro no Mosteiro de São Bento - Olinda

8 comentários:

Mila Tigre disse...

Meu amor.....coisa mais linda! Daria minha vida prá lhe ver sem sofrimentos, mas isso não é possível....paciência!!!! Vamos caminhando juntas, de mãos dadas...todos que lhe amam dividem um pouquinho o seu sofrimento com vc, e assim, vamos encontrar um cantinho calmo para ele...um cantinho suave, protetor, que lhe abrande os sofrimentos mais intensos e lhe dê a oportunidade de sorrir mais leve! Vou lhe escrever um trecho bonito, no seu email, que fala de Maria, mãe de Jesus, e sua força diante dele na Cruz, ok? bju, bju, bju da mãe que te ama de alma....

Unknown disse...

Amiga, que coisa mais linda!! Pra variar, chorei, né?!!
Infelizmente, vc não vai vê-lo fisicamente, indicar seus caminhos ou carregar teus babies, mas pode ter certeza que ele vai estar aqui junto com os anjinhos da guarda de vocês, olhando, torcendo e admirando a obra prima dele!!
Fica com Deus!! E estamos rezando muito por ele!!
Te amamos, viu??

Camila disse...

Marina, sem palavras para comentar esse texto. Com certeza esse fim está muito longe de chegar - se é que existe esse fim. Força e que seu Pai esteja bem acolhido, bem protegido, cheio de amigos e te abençoando lá de longe (ou nem tão longe assim).
Beijo.

Unknown disse...

Marina, Prima linda!

Admiro sua coragem, não só de conseguir ficar em pé mas de falar e terminar um discurso tão verdadeiro. No mosteiro fiquei emocionada, foi muito lindo o que você escreveu e sei que deve ter sido muito difícil para você.
Tamos aqui Má para tudo!
Mil beijos

Cela

p.s. saudade é o amor que fica

Junkie Box disse...

Sem palavras...
Amor de alma... que vem da alma... que se eterniza no etéreo infindável da alma...

Mônica Parreiras disse...

Nossaaaaaaaa, nunca li nada igual. Que homenagem maravilhosa... O retrato de uma despedida através de uma realização. Parece que ele de fato, te entregou ao Thiago e sabia que você estaria em boas mãos...
Só posso desejar que o tempo aplaque um pouco da tua dor e para ele muita luz para irradiar até nós todos!!!
Bj no coração!

laís pim! disse...

que lindo texto, marina!
mais uma vez vc consegue chegar no mais fundo dos nossos corações. pena que desta vez ñ foi com as alegrias e descobertas da vida e sim com um momento tão intenso e doloroso.
a saudade é grande, bem maior do que a gente acha que cabe dentro da gente, e é difícil te imaginar sem um sorriso no rosto. estamos pensando em vc com todo carinho e espero que esse sentimento voe e chegue até teu coraçaozinho machucado, pra poder dividir um pouco a tristeza contigo e que ela vá diminuindo até se transformar por completo nas mais doces lembranças.
beijinhos _laís, diogo y artur

Eliza Brito disse...

Oh mulher, o fim não chega nunca, não quando a gente ama. Tenho um orgulho enorme da senhora, viu? E orgulho de quem sabe o que é isso que a senhora tá vivendo. Também perdi um gigante, o maior do mundo, pra mim, assim como o seu, que é o maior do mundo, pra você. É, porque vai ser, pra sempre! Todas as melhores energias. E, repito, estou aqui. :*