“Nem todo mundo tem a oportunidade de se despedir dessa forma.”
Escutei de uma grande amiga outro dia. É painho, a última vez que nos encontramos foi em grande estilo. A gente estava em festa. Você estava lindo, de meio fraque, barba aparada, cabelos cortados e muito, mas muito cheiroso. Tudo pra me agradar. Sem o colar africano, sem os vários anéis, sem a cartola que você tinha inventado, sem calça boca-de-sino. E tudo isso pra me agradar. Eu pedi e insisti pra que naquela noite você deixasse um pouquinho de lado o Germaninho artista, produtor de cinema, contestador, irreverente e batalhador para que fosse simplesmente meu pai. E você foi. A contragosto, inicialmente, mas foi. E aqueles momentos foram tão preciosos pra nós dois. O teu olhar emocionado quando me viu vestida de noiva, nosso nervosismo e ansiedade dentro do carro, antes de entrar na igreja. As lágrimas no altar, você e mainha, lado a lado, como os vi tão poucas vezes. O “Ói, Ói” de recomendação quando, na frente de tantos rostos queridos, soltei seu braço para seguir ao lado de Thiago. A nossa dança, a nossa despedida. Muita emoção. O dia mais feliz da minha vida.
foto: Luka Santos
Hoje, 37 dias depois, estamos aqui reunidos com o coração apertado. O meu coração sofre pelo que não vivemos, por um futuro que ainda estava por se desenhar, pelo que vinha pela frente. O almoço que combinamos pro domingo, pra você conhecer o nosso apartamento. Não deu tempo. O domingo 17 chegou mas na hora do nosso almoço te chamaram para um outro compromisso, inadiável.
Lembra do que você me perguntou no telefone quando voltei de lua-de-mel? “Cadê minha filha casada? Já tá buchudinha? Quero que o meu neto chegue logo pra eu estragar.” E eu respondi: “Não, pai! Pelo amor de Deus.. só daqui a uns três anos.” Esta foi a primeira vez que falávamos de um cronograma que não era de filmagem, pré-produção ou de distribuição. Painho, dói demais saber que você não vai poder carregar os meus filhos no colo. Assim como dói ver teus projetos inacabados, tantos ainda por acontecer, tantas idéias.. a tua mente não descansava jamais. Uma fábrica que criava muito mais do que, de fato, tinha tempo de realizar.
Germaninho chegou nesta vida pra marcar a vida da gente. Ele não fazia o tipo discreto. Gesticulava, falava alto, falava muito, falava bem. Pagava contas absurdas de telefone. Ele “tinha a voz como um pipoco.” E tinha muita coisa pra dizer. E pra ensinar. Pra mim ele foi um excelente professor. Eficiente, exigente.. e um pai diferente. Hoje eu tô com medo de não ter mais ele pra soprar no meu ouvido e me apontar os caminhos... ele conhecia os melhores atalhos. E sempre tinha uma resposta esclarecedora, didática e completa, de quem entendia de quase tudo.
Eu sei que mesmo falando tanto, em quase 27 anos eu só conheci um pedacinho de Germaninho. Ele é grande demais. Posso encontrar pequenas porções dele nos jardins das Sete Casuarinas, nas ladeiras de Olinda, nas águas de Carneiros, do Capibaribe, do São Francisco.. no céu estrelado, no cinema de Pernambuco, na música, nos livros, nos amigos tantos.. e no espelho. E eu me encho de orgulho.
Ele estava com os olhos fechados mas eu disse no ouvido dele, já nos créditos finais: “pai, o nosso amor é de alma”. E o fim está muito longe de chegar.
Texto lido na missa de 7º dia de painho,
terça-feira 25 de outubro no Mosteiro de São Bento - Olinda
terça-feira 25 de outubro no Mosteiro de São Bento - Olinda


